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Seminário Gestão Urbana

Direção de Criação
Styling
Produção de Moda
Fotografia
Academia

O Editorial FASHIONTOPIA surgiu de um Seminário apresentado no PPGTU da PUCPR na disciplina do professor Salvador Gnoato. Em paralelo estávamos produzindo imagens para o Vogue Women by Women, que teve como inspiração o próprio seminário.

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Fashiontopia

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Em Fashiontopia, a cidade deixa de ser o cenário onde a roupa é julgada e passa a ser o campo onde a mulher exerce presença. Essa hipótese encontra um apoio importante na leitura de Fabiano Borba Vianna sobre o Plano de Curitiba: o plano coordenado por Jorge Wilheim, com a colaboração da equipe local que daria origem ao IPPUC, articulou estrutura linear, transporte coletivo e uso do solo multifuncional, tangenciando o centro e tornando possível a transformação da Rua XV de Novembro em área de pedestres. Na própria formulação de Vianna, trata-se de relacionar Curitiba ao ambiente intelectual do pós-guerra e, em especial, ao universo do Team 10.

Esse deslocamento é decisivo. Se o urbanismo funcionalista clássico tendia a pensar a cidade pela separação rígida entre habitar, trabalhar, recrear e circular, a crítica do Team 10 procurou recolocar em primeiro plano as formas concretas de associação humana. No célebre Urban Re-Identification Grid, apresentado por Alison e Peter Smithson no CIAM 9, a cidade deixa de ser lida apenas por funções e passa a ser entendida por escalas de associação — casa, rua, bairro, cidade —, com ênfase na vida cotidiana, na identificação e no espaço público vivido.

 

 

 

 

 

 

 

 

É exatamente essa mudança de chave que o seu diagrama reencena: de house/street/district/city para human/house/street/relationship/city/utopia/fashiontopia.

No caso curitibano, essa inflexão não é abstrata. Textos recentes sobre o período mostram que Jaime Lerner, antes de se tornar prefeito, trabalhou em Paris no escritório de Candilis, Josic & Woods, ligado ao campo crítico do Team 10, e participou de estudos em Toulouse Le Mirail e em Fort-Lamy. Esses projetos operavam com eixos estruturadores, clusters e uma combinação entre habitação, comércio e serviços. Em Curitiba, a implementação do plano por Lerner recupera parte dessa sensibilidade: crescimento linear em vez de concêntrico, respeito relativo à infraestrutura existente, valorização do centro tradicional e deslocamento do protagonismo do automóvel em favor das pessoas.

A Rua XV de Novembro torna-se, então, mais do que um calçadão: ela vira demonstração de uma outra ideia de centralidade. Estudos sobre a pedestrianização lembram que o objetivo era fortalecer a área central a partir do uso das pessoas, com mobiliário, informação cultural, mesas na calçada, flores, quiosques e permanência. Não se tratava apenas de retirar carros, mas de reconstruir a rua como espaço de convivência, comércio e circulação lenta. A rua deixava de ser corredor de passagem para voltar a ser suporte de sociabilidade.

É aqui que o Plano Massa ganha força dentro de Fashiontopia. A legislação curitibana preserva até hoje o DNA dessa ideia: ao longo das vias centrais dos eixos estruturais, exige-se continuidade da testada comercial, embasamento com térreo e sobreloja, galeria coberta e ocupação por usos comerciais e de prestação de serviços. Em outras palavras, o plano mistura circulação, abrigo, consumo cotidiano e serviços na base dos edifícios. Lido em chave feminista, isso permite uma interpretação potente: parte do trabalho de reprodução da vida sai do isolamento doméstico e se redistribui pela cidade. Não é uma libertação total, evidentemente, mas uma liberação parcial da mulher em relação à clausura dos afazeres concentrados na casa. A cidade passa a absorver tarefas, tempos e deslocamentos do cotidiano. Essa leitura é coerente com a pesquisa de Valéria Tessari sobre O Louvre, que mostra como o consumo de moda e a presença feminina nas calçadas, na Rua XV e no centro de Curitiba se constituíram mutuamente, a ponto de a loja e o consumo funcionarem como meios pelos quais mulheres puderam ocupar o centro da cidade.

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Por isso, em Fashiontopia, a distinção entre privado, semipúblico e público é central. O privado é o espaço do recolhimento, do corpo em repouso, do quarto, da cama, do vestir-se antes de sair. O semipúblico é a zona de transição: galerias, vitrines, halls, arcadas, calçadas alargadas, mesas externas, a borda onde a intimidade começa a negociar com a cidade. O público é a rua plena, a praça, o centro acessível a todos. Jan Gehl descreve justamente essa gradação entre privado, semiprivado, semipúblico e público como condição de pertencimento, segurança e apropriação do exterior; e a literatura sobre privacidade doméstica também trabalha com hierarquias entre zonas privadas, semiprivadas e públicas no interior da habitação. Nesse ponto, a frase  — “The bed is the primary unit of privacy.” — funciona muito bem como operador conceitual. A Carta de Atenas, derivada do CIAM 4, afirma que a moradia deve ser considerada o centro primordial do planejamento urbano e insiste que as dimensões da cidade devem se relacionar à escala humana.

 

Em Fashiontopia, o gesto decisivo é mostrar que o problema começa quando essa “escala humana” se pretende universal, mas nasce masculina.

O Modulor de Le Corbusier é exemplar: sua escala parte de um homem com o braço erguido, e a crítica posterior mostrou com clareza que o corpo feminino foi tardiamente considerado e rejeitado como fonte de proporção. Ou seja: a chamada escala humana era, de fato, uma escala masculina. O que o ensaio fotográfico propõe é uma inversão precisa dessa tradição. Ao substituir o corpo masculino abstrato por um corpo feminino, não apenas se corrige uma ausência: reabre-se a própria pergunta sobre quem mede a cidade, quem serve de padrão e quem tem o direito de atravessar o espaço público sem ser reduzida ao seu corpo.

 

É também por isso que o retorno contemporâneo de imaginários conservadores pesa tanto. A estética tradwife recoloca em circulação a fantasia de uma domesticidade pacificada, sustentada por um homem provedor e por uma mulher reconduzida ao interior da casa. Pesquisas recentes mostram que esse conteúdo romantiza o trabalho doméstico e promove um “retorno” ao modelo heteronormativo do provedor masculino; ao mesmo tempo, um relatório de 2025 do King’s College London sugere que não há evidência robusta de um retorno generalizado das jovens a normas tradicionais — o que existe é exaustão diante da desigualdade, do trabalho remunerado somado à carga doméstica e do apelo imagético de uma vida aparentemente calma. Em outras palavras: o retrocesso é, antes de tudo, uma sedução estética.

Talvez por isso suas imagens trabalhem com nostalgia. Mas não uma nostalgia reacionária, de retorno à submissão. Antes, uma nostalgia da promessa moderna que ficou inacabada: a promessa de que comércio, serviços, espaço público, mobilidade e desenho urbano poderiam ampliar a autonomia das mulheres na cidade. Fashiontopia nomeia justamente essa utopia incompleta: a de uma mulher que possa ocupar toda a cidade independentemente da roupa que veste. Não porque a roupa deixe de importar, mas porque ela deixa de funcionar como autorização moral para entrar no espaço público.

 

Nesse sentido, há hoje uma contracorrente importante na moda. A Prada, por exemplo, vem formulando coleções que interrogam explicitamente o que significa feminilidade hoje; em 2025, a marca falou em deslocamento, reescala e recontextualização, alterando a relação entre corpo e o vestuário. Na leitura da Vogue sobre o desfile de primavera-verão 2026, surgem peças “desenhadas para não vestir” no sentido convencional: sutiãs que cobrem sem sustentar, formas que flutuam para longe do corpo, roupas que não aderem nem modelam como se esperaria. Há aí um gesto claro de desfetichização: separar a roupa do contorno obrigatório do corpo, liberar o vestir da obrigação de esculpir a mulher para o olhar.

 

Fashiontopia, então, não é uma fuga da cidade. É o contrário. É a recusa de que o quarto seja o destino final da mulher; a recusa de que a cama, o lar ou a domesticidade definam o limite do seu raio de ação. Do leito à galeria, da galeria à rua, da rua à cidade, o que o seu ensaio propõe é uma nova cadeia de associações: não mais a mulher medida por uma cidade masculina, mas a cidade reimaginada a partir do corpo feminino em movimento. A utopia aqui não é ornamental. É urbana, política e espacial. É a hipótese de que um dia a roupa não servirá para restringir a presença da mulher no mundo, mas para acompanhá-la em qualquer parte dele.

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Fontes

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Fabiano Borba Vianna, O plano de Curitiba 1965-1975: desdobramento de outro moderno brasileiro (USP).
Valéria Faria dos Santos Tessari, Louvre, o rei das sedas (UFPR).
Maria da Graça Rodrigues dos Santos e Elizabeth Amorim de Castro, “A cidade moderna nos planos de urbanismo de Curitiba (1960–1970)”.
Isabella Caroline Januário e Felipe Taroh Inoue Sanquetta, “Alternativas projetuais nos primeiros anos da década de 1970”.
Legislação urbanística de Curitiba sobre Plano Massa.
CIAM / Carta de Atenas (1933).
Jan Gehl, Life Between Buildings.
A. N. Tomah, “The concept of privacy and its effects on residential layout and design”.
Sykes, “From ‘girlboss’ to #stayathomegirlfriend”.
King’s College London, Tradwife: Between Myths and Realities (2025).
Prada FW 2025 show notes; Vogue on Prada SS 2026.

Rua XV de Novembro, Curitiba, 1972

Nigel Henderson, Parallel of Life and Art, 1953

Ficha Técnica
 
Direção de Criação: Mariah Salomão Viana
Styling: Kero Avi
Produção de Moda: Kero Avi
Assistência: Anna Bonfin 

Fotografia: Sabrina S.
Modelo: Sara Galvan para Take Agency
Beauty: Pamela Frankiv​
Vestuário: NovoLouvre

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MADE IN DOWNTOWN CURITIBA, BRAZIL

 1935, the fabric store Louvre was opened in Curitiba. In 2007, the third generation of the family launched NovoLouvre in a building built by Miguel Calluf, founder of the Louvre. In this building, located in the historic center of Curitiba, much of the collection NovoLouvre is created, produced and marketed. NovoLouvre brings Curitiba's fashion and style to all the World.

NovoLouvre's Atelier

Adress: Rua Trajano Reis, 36  São Francisco CEP 80510220. Curitiba PR Brazil

Phone: +55 41 3232.0055

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